No final daquele dia ocupou o mesmo lugar de sempre na sua sala solitária. Tudo o que havia era silêncio. O sol, que se tinha escondido nos últimos dias, brilhava. Na rua, uma imensidão de oportunidades. Estava tudo no percurso certo, a Primavera começava a despertar... Olhou em volta. Apesar de todos os móveis ainda existiam muitos espaços vazios, sobretudo no seu coração. Nela não existia tristeza ou arrependimento, mas o suspiro começava a tornar-se pesado... Questionava-se insistentemente sobre quais os motivos que a teriam levado a revelar-lhe parte da sua vida e até que ponto não estava arrependida de o ter feito.
Fuga
Dizer-te que o mundo é mais cinzento que belo e obrigar-te a ouvir as palavras sábias de um qualquer idoso sentado no banco do jardim, por onde te passeias... Pegar a tua mão e segredar-te ao ouvido que não é estúpido o que se escreve em cartas, mas que pode ser cruel não as saber interpretar... Fitar os teus olhos e fixar um horizonte de promessas e futuros falhados... Contar-te os meus planos, a minha vida, as minhas lágrimas... Expor o coração ao mais ínfimo pormenor e ainda assim voltar para casa com ele dentro do peito... Fazer as malas, retocar a maquilhagem, vestir uma roupa bonita, sentir confiança e ainda assim sair para a rua e fugir de mãos vazias!
Texto para a Fábrica de Letras (Agosto)
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